quarta-feira, 16 de junho de 2010

De que é que se tem medo?

""Aonde vais este fim-de-semana?" 
"Fico por aí"
"Por aqui", "por aí" designam lugares indeterminados, trajectos aleatórios, sem direcção nem fronteiras, mas bem precisos para os portugueses. Curiosamente, o "por aí" refere-se a um pequeno território de deambulação (física e mental), ao mesmo invisivelmente enclausurado e internamente livre.
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A ausência de fronteiras confere ao deambular um carácter aventuroso, mas sem risco. O mapa mental correspondente aos trajectos a efectuar possui uma textura plástica, móbil. 
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O medo herda-se. Porque interiorizado, mais inconsciente do que consciente, acaba por fazer parte do "carácter dos portugueses" (ditos, "tristes, taciturnos, acabrunhados"),... que passa de pais para filhos, de geração para geração.
Hoje, trinta anos depois do fim do regime do medo, convivemos ainda com ele. A sociedade portuguesa, os portugueses não perderam o medo, ainda que (ou talvez por isso) as novas gerações pouco saibam do passado salazarista.
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O medo é uma estratégia para nada inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português."

in Portugal, Hoje O Medo de Existir de José Gil

Escrito em 2004, comecei a lê-lo este fim-de-semana e continua actual... é tão fácil identificar os maneirismos portugueses
claramente um livro imprescindível para quem precisa de perceber o porquê de muitas coisas

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